Investigados contam como funcionava esquema de fantasmas na Assembleia do Tocantins - Jornal Porto Midia

Cinco dos seis servidores suspeitos de serem fantasmas no gabinete do presidente da Assembleia Legislativa do Tocantins, Antônio Andrade (PHS), confessaram em depoimento que devolviam a maior parte dos salários para o filho do deputado, o vereador Tony Andrade (PSD), ou outras pessoas ligadas ao deputado. A prática é denominada pela Polícia Civil como ‘rachadinha’.

G1 teve acesso ao depoimento do deputado e ao relatório que indicia os envolvidos por peculato – apropriação de dinheiro público, associação criminosa e continuidade delitiva. As investigações foram feitas pela Delegacia de Repressão a Crimes de Maior Potencial contra a Administração Pública (Dracma) de Palmas, dentro da operação Catarse.

A quebra do sigilo bancário dos investigados demonstrou que a maior parte do dinheiro pago aos seis assessores parlamentares era devolvida por transferência ou por pagamento em espécie.

O deputado foi procurado, mas ainda não se manifestou sobre o indiciamento. O advogado do vereador informou que ainda não teve acesso ao relatório e não vai se manifestar neste momento.

Confira como funcionava o esquema:

Jales Macedo Fernandes: Segundo a polícia, ele confessou que jamais exerceu, de fato, a função de assessor parlamentar, bem como declarou ter sido nomeado como promessa de campanha do deputado estadual Antônio Andrade, conhecido como Toinho Andrade, pois teria ajudado o parlamentar nas eleições de 2014.

O investigado também declarou que, dois ou três meses após ter sido nomeado – ainda no ano de 2015 –, recebeu uma ligação do deputado para que repassasse parte de seu salário para duas pessoas que vivem em Porto Nacional e que passou a fazer os repasses desde aquela época.

Jales Macedo, que é caminhoneiro, e Antônio Andrade (PHS) seriam amigos desde crianças. Ao todo o caminhoneiro, teria recebido entre 2015 e 2019, o total de R$ 93,850.

O deputado disse, em depoimento na semana passada, que o homem prestava serviços de motorista no escritório de Porto Nacional e quando era requisitado. Afirmou desconhecer que ele tinha outro emprego e que não solicitou que entregasse parte do salário para outras pessoas.

Adriana Alves Paranhos: Confessou que não trabalha efetivamente na Assembleia Legislativa do Tocantins, mas sim como professora da rede municipal de ensino de Porto Nacional. Ela firmou que aceitou ser nomeada para o cargo mediante acordo com Tony Andrade, comprometendo-se a devolver parte dos proventos auferidos.

Ainda segundo a Polícia Civil, ela declarou receber a quantia de R$ 2.740,00 desde o primeiro semestre de 2018, repassando a quantia de R$ 2.200,00, em espécie, para Tony Andrade, filho do deputado estadual Antônio Andrade.

Durante o contrato, entre 2015 2019, ela teria recebido R$ 112.075.

O deputado disse, em depoimento, que não conhece a mulher. Ao ser questionado sobre a nomeação, se reservou ao direito de permanecer em silêncio.

Ludoviro Roma da Silva: Também confessou devolver parte do salário de cinco a seis vezes por ano. Supostamente entregava a quantia de R$ 1 mil em espécie para uma secretária do parlamentar Antônio Andrade em Porto Nacional.

Ele declarou que trabalhava como vigilante patrimonial em uma empresa privada e foi nomeado para o cargo de assessor por ter ajudado o deputado estadual na campanha eleitoral de 2014, ocasião em que o parlamentar, após reeleito, teria lhe dito: “você me ajudou, vou te ajudar”.

O vigilante teria recebido entre 2015 e 2019 o valor total de R$ 126.931.

O deputado afirmou que Ludoviro trabalhou como voluntário “pedindo voto”. Também afirmou que o servidor trabalhou como assessor parlamentar e assinou declaração dizendo que não tinha outro emprego. Por fim negou que o escritório tenha solicitado a devolução de dinheiro.

Leandro Vinícius Ferreira Vilarinho: negou a prática do delito, afirmando que exercia, de forma “externa”, a atividade de assessor parlamentar, atuando na região de Novo Acordo. Declarou que suas funções de assessor parlamentar se limitavam a repassar as sugestões e as demandas da população daquela região.

Também declarou que desempenhava cumulativamente emprego junto a uma empresa privada localizada em Novo Acordo. Negou ter devolvido parte de seus salários ao deputado Antônio Andrade ou a pessoa por ele indicada.

Porém, de acordo com a Polícia Civil, isso foi desmentido através da análise de suas movimentações bancárias. Ao todo, ele teria recebido entre 2015 e 2019 o total de R$ 275.213.

Em depoimento, o deputado afirmou que conhece Leandro Vinícius, mas negou que ele tenha sido contratado no gabinete. Também negou que o investigado tenha trabalhado na campanha e conhece apenas “de vista”.

Franklin Delano Matos Maia: Confessou ter recebido salários dos cofres públicos sem trabalhar. Ele contou à polícia que é casado com uma prima de Antônio Andrade e foi nomeado mediante acordo com o vereador Tony Andrade para devolver mais de 80% dos proventos.

Declarou também que devolvia a quantia combinada mediante transferência bancária para conta de Tony Andrade. Mas quando os valores ultrapassavam o limite bancário para transferência, sacava e entrega em mãos do filho do deputado.

O assessor teria recebido R$ 322.278 entre os anos de 2015 e 2018. A quebra do sigilo bancário confirmou que ele fez 56 transferências para Tony Andrade, no valor de R$ 155 mil.

Em depoimento, o deputado Antônio Andrade não respondeu sobre o vínculo de parentesco. Sobre as suspeitas de devolver a maior parte do salário, o parlamentar disse não ter conhecimento.

Antônia Rosal de Oliveira: Confessou o duplo vínculo trabalhista, acumulando os cargos públicos de agente comunitário de saúde e assessor parlamentar. Ela negou devolver qualquer quantia ao parlamentar, mas a quebra do siligo bancário mostrou que fez 44 transferências para Tony entre janeiro de 2015 e maio de 2018.

O deputado afirmou, em depoimento, que ela trabalhava nas horas vagas como assessora em Porto Nacional, fazendo cadastro de famílias carentes que eram ajudadas pelo parlamentar. “Eram pessoas que a gente fazia visita e ajudava no fim do mês […] Ajudada de todas as formas, com remédios, mantimentos”

Antônio Andrade disse desconhecer que ela tinha um outro trabalho e assinou termo dizendo que não tinha outro vinculo empregatício. Também negou que Antônia Rosal tenha devolvido parte do salário. A agente de saúde teria recebido R$ 250.881 entre 2015 e 2018.

Informações / G1 Tocantins


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